quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Hermetismo

    O adágio "Deus escreve certo por linhas tortas" exprime de forma ingênua um conceito coerente com a essência do hermetismo, ao reconhecer que a realidade que transcende ao homem pode manifestar-se de forma ambígua e aparentemente incompreensível.
    Dentro da ampla variedade de conhecimentos espirituais reunidos sob o nome de esoterismo, hermetismo designa sobretudo os conhecimentos que dizem respeito à esfera cósmica, por oposição à esfera divina ou puramente espiritual, a que ela conduz como um estágio preparatório. O hermetismo não se ocupa diretamente de temas espirituais -- Deus, infinitude, eternidade etc. -- mas sim do aspecto espiritual da natureza, do cosmos e da matéria, considerados como pontes sem cuja travessia o espiritual é inacessível ao homem. Não trata do espírito, mas da espiritualização.
    Seu campo de atuação é duplo: de um lado, busca elevar o homem ao conhecimento do divino por meio do conhecimento das leis naturais em que se expressa sutilmente uma intencionalidade divina. O preceito alquímico lege, lege, relege et invenies ("lê, lê, relê e encontrarás") refere-se menos aos livros do que à natureza mesma, considerada como uma criptografia divina. Decifrar essa criptografia permite "refazer" o homem, tanto na alma como no corpo. De outro lado, a tradição hermética crê que, assim fazendo, não beneficia apenas o homem, mas enobrece a natureza e a própria matéria, espiritualização do cosmos. A transformação do chumbo em ouro designa assim, inseparavelmente, o enobrecimento da matéria e do homem, e é esta inseparabilidade, esta unidade dos conhecimentos físicos e espirituais, que mais tipicamente caracteriza a tradição hermética.
    Usado às vezes em sentido genérico, para designar quaisquer conhecimentos dessa índole (e nesse caso pode-se falar, por exemplo, de um hermetismo chinês, ou hindu), o termo é mais freqüentemente empregado para nomear a vertente greco-romana (e, por herança, européia e islâmica) dessa tradição.
    O hermetismo em sentido estrito surgiu no final da época helenística, afirmando-se como uma revivescência de um legado egípcio. Compunha-se, como seu antepassado, de um complexo de conhecimentos em que se destacavam a astrologia, a alquimia e a magia. Segundo essa tradição, o deus egípcio Thot (Hermes para os gregos, Mercúrio para os romanos), teria sido o portador dos primeiros conhecimentos que os homens receberam sobre a matemática, a escrita e as ciências da natureza em geral (sem esquecer que, nessa perspectiva, a natureza é encarada sempre como manifestação do espírito, e não como território puramente "material" isolado).
    O deus Thot, em forma de mandril e como padroeiro dos escribas. Thot (Hermes na Grécia) teria transmitido ao homem os primeiros conhecimentos herméticos.

Hermetismo (LITERATURA).

Tendência das obras de arte cujo sentido é oculto e impenetrável para o leitor comum e acessível apenas a iniciados.

Italiana, literatura ; Mallarmé, Stéphane ; Montale, Eugênio ; Quasimodo, Salvatore ; Ungaretti, Giuseppe

"Adagas cujas jóias velhas galas... / Opalesci amar-me entre mãos raras, / E fluido a febres entre um lembrar de aras, / O convés sem ninguém cheio de malas..." Esses versos, do poema "Passos da Cruz", do poeta português Fernando Pessoa, podem ser considerados exemplo de hermetismo.
O conceito de hermetismo em literatura é análogo ao utilizado na filosofia e nas ciências esotéricas. Refere-se portanto à obra de arte cujo sentido é fechado, secreto, impenetrável, oculto, indecifrável para o leitor comum e acessível apenas para os iniciados. O hermetismo nem sempre é intencional, e tanto pode decorrer da complexidade da mensagem, quanto do desejo que um artista ou um grupo sinta de renovar técnicas de expressão que considere banalizadas. Historicamente, liga-se mais à poesia que à prosa.
Encontram-se na literatura da Idade Média (séculos XII e XIII) as primeiras expressões do hermetismo. Na poesia provençal existiu o trobar clus, ou trobar escur, trobar cobert, poetar fechado, em oposição ao trobar leu, ou poetar ligeiro. Dante Alighieri, com Rime petrose, e Guido Cavalcanti, com suas canções, praticaram o dolce stil nuovo, de difícil penetração.
Na poesia barroca, o exemplo mais típico surgiu na Espanha, com o culteranismo de Luis de Góngora, que se caracteriza pelo preciosismo e sintaxe complexa. A censura atingiu os metaphysical poets ingleses, John Donne, George Herbert, Richard Crashaw e Andrew Marvell por suas "sutilezas escolásticas".
No pós-romantismo, um exemplo de hermetismo são Les Chants de Maldoror, do poeta francês Lautréamont, pela ambigüidade e o hiper-romantismo, tal como a obra de outro poeta francês, Stephane Mallarmé.
A poesia moderna, pela influência dos simbolistas, foi por vezes hermética. Por necessidade de expressão e renovação da linguagem poética, grandes poetas do século XX, como Paul Valéry, William Butler Yeats, Rainer Maria Rilke, Ezra Pound, Jorge Guillén e T. S. Eliot foram herméticos. Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo usaram o hermetismo para manter a independência de sua poesia, na ditadura fascista. Na poesia brasileira, são exemplos de hermetismo algumas criações de Jorge de Lima e Murilo Mendes.


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